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Introdução
1. O Papa Bento XVI proclamou um “Ano Paulino”, para celebrar os 2000 anos do nascimento de São Paulo, com início na Solenidade dos Apóstolos Pedro e Paulo, a 29 de Junho de 2008, e a terminar um ano depois. Este Ano Paulino coincide, no tempo, com uma outra proposta feita pelo Santo Padre a toda a Igreja: a convocação de um Sínodo sobre a Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja. Esta simultaneidade sugere-nos a convergência dos dois temas nas propostas pastorais. Paulo, grande Apóstolo da Palavra, pode ser o nosso guia para descobrirmos, mais profundamente, o lugar da Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja. Basta pensar que ele é o autor sagrado mais frequentemente lido na Liturgia.
A Palavra de Deus é o Verbo eterno de Deus, a mensagem do coração de Deus que Ele quer comunicar aos seres humanos. A Palavra revelada é apenas o meio sacramental, expressão do mistério da encarnação, que nos pode levar a escutar a Palavra viva de Deus. Paulo tem uma consciência muito profunda dessa origem divina da Palavra. As suas principais cartas antecedem cronologicamente os outros escritos do Novo Testamento. Paulo confessa que o Evangelho que anuncia o recebeu directamente de Jesus Cristo, tendo sido confirmado pelos outros apóstolos. Aos Gálatas ele escreve: “Com efeito, faço-vos saber, irmãos, que o Evangelho que por mim foi anunciado, não o conheci à maneira humana; pois eu não o recebi nem aprendi de homem algum, mas por uma revelação de Jesus Cristo” (Gal 1,11-12). Com Paulo, a Igreja pode fazer esta descoberta da Palavra viva, a que Deus quer dirigir ao Seu povo, Palavra que brota do coração de Deus.
Paulo pode guiar-nos em todos os caminhos de escuta da Palavra: na celebração da Páscoa; na evangelização, como primeiro anúncio de Jesus Cristo; no aprofundamento da fé, em processo catequético; na fidelidade a Deus, vivendo segundo as exigências da Palavra; no fortalecimento da esperança, pois toda a Palavra de Deus nos abre para o horizonte da eternidade.
Paulo e a nova fronteira da evangelização
2. Paulo protagonizou, na sua experiência de Apóstolo, o alargamento do horizonte dos destinatários do Evangelho, problema actual na relação da Igreja com a sociedade. A Igreja primitiva viveu dramaticamente este problema: o Evangelho era destinado aos judeus e os novos discípulos de Jesus deviam sujeitar-se à circuncisão e obedecer às normas legais do povo judaico, ou era também para os pagãos que, uma vez convertidos a Cristo, ficavam a pertencer ao Povo de Deus, obedecendo apenas às exigências do Espírito e não a leis especificamente judaicas? Paulo, nascido judeu, formado na escola do Mestre Gamaliel, que nunca renegou o seu amor e a sua pertença ao Povo de Israel, ao verdadeiro Israel de Deus (cf. Rom 9,1ss), é o grande protagonista deste alargamento do horizonte da evangelização. Identifica aí a sua graça própria: “A mim, o menor de todos os santos, foi dada a graça de anunciar aos gentios a insondável riqueza de Cristo” (Ef 3,8), de tal modo que aqueles que se convertem a Cristo são “concidadãos dos santos, membros da casa de Deus” (2,19).
Este alargar do horizonte do anúncio do Evangelho é o desafio feito à Igreja por João Paulo II, lançando-a para uma nova evangelização. É que a Igreja também hoje corre o risco de limitar o anúncio de Jesus Cristo àqueles que continuam no seu redil, compreendem a sua linguagem e conhecem as suas leis, e tem dificuldade em anunciar Jesus Cristo a uma sociedade cada vez mais secularizada.
As sociedades contemporâneas, apesar de muito diferentes das sociedades do Império Romano do século I, têm traços comuns: estão profundamente marcadas pelo hedonismo e pelo materialismo, reduzindo o problema de Deus ao arbítrio e à decisão humana, fiel a ritos, mas incapaz de reconhecer o Deus vivo e transcendente. Por outro lado, em ambas se notam sintomas de insatisfação, que pode transformar-se em abertura à surpresa vivificante do anúncio de Jesus Cristo. Paulo teve desilusões e sucessos e pode inspirar a Igreja actual a discernir, nos anseios dos homens e mulheres do nosso tempo, aberturas à Palavra de Deus. Ela é chamada a ler, nas buscas e inquietações humanas, os “sinais dos tempos”, indicativos da necessidade e do desejo da salvação (cf. G.S. nn. 4 e 11).
O evangelizador possuído por Jesus Cristo
3. Paulo revela-nos, no testemunho da sua vida, o dinamismo sobrenatural da evangelização: a força que brota do encontro com Cristo ressuscitado. Tudo começou na sua conversão, com a revelação pessoal de Jesus Cristo, afirmando uma verdade perene: só quem se converte a Jesus Cristo, pode ser evangelizador.
Para Paulo tudo começou na estrada de Damasco, onde Cristo ressuscitado se lhe manifesta e lhe faz o chamamento de pôr todo aquele zelo com que perseguia os cristãos, com os quais Jesus Se identifica, ao serviço do Evangelho, a boa-nova da salvação. “Quem és Tu Senhor?” “Eu Sou Jesus a Quem tu persegues” (cf. Act. 26,12-16). Paulo nunca mais duvidará que o Evangelho que anuncia o recebeu naquele momento. Ele próprio o confessa aos cristãos de Corinto: “transmiti-vos em primeiro lugar o que eu próprio havia recebido: que Cristo morreu pelos nossos pecados, segundo as Escrituras e foi sepultado; que foi ressuscitado ao terceiro dia, segundo as Escrituras e apareceu a Cefas, depois aos doze (…). Depois disso (…) apareceu-me também a mim” (1Cor. 15,3-8). Paulo considera esta a sua graça própria, a escolha misericordiosa de Deus: “pela graça de Deus sou o que sou; e a graça que me foi dada não foi estéril” (1Cor. 15,10).
Toda a vida de Paulo se situa depois deste encontro, vive dele, em plena alegria (cf. Fil. 1,21; Gal. 2,20), o mais é lixo (cf. Fil. 3,8); “Ai de mim se não anunciar o Evangelho!” (1Cor. 9,16) – e dá testemunho dos efeitos desse encontro: “O Reino de Deus (…) é justiça e paz e alegria no Espírito Santo” (Rom. 14,17); por isso, Paulo esquece o que fica para trás e atira-se para as coisas que estão à sua frente (cf. Fil. 3,13). Não admira que inicie as suas Cartas com a saudação nova da graça e da paz de Deus, Nosso Pai, e do Senhor Nosso, Jesus Cristo, e as termine sempre com a graça do Senhor Nosso, Jesus Cristo… E o autor do Livro dos Actos dos Apóstolos fecha o Livro deixando Paulo em Roma “a anunciar o Reino de Deus e a ensinar o que diz respeito ao Senhor Jesus Cristo” (Act. 28,31).
Esta fidelidade de Paulo a Jesus Cristo sugerir-nos-á caminhos de conversão para todos os evangelizadores, também eles chamados a deixarem-se possuir por Jesus Cristo para poderem anunciar o Seu Evangelho.
4. O alargamento do anúncio do Evangelho aos descrentes e aos que abandonaram a vida cristã supõe evangelizadores com as características exigidas pela nova evangelização. No dizer de João Paulo II, esses evangelizadores têm de ser possuídos de um novo ardor, porque o seu testemunho é um primeiro anúncio de natureza querigmática. As Igrejas de Portugal necessitam de repensar estes dois elementos da nova evangelização. É preciso identificar, preparar e enviar esses evangelizadores. Na pedagogia e nas atitudes a primeira evangelização é diferente da catequese. E muitas crianças, jovens e adultos que inserimos nas nossas catequeses organizadas, precisavam desse anúncio querigmático. A generalidade da juventude, as famílias, os leigos chamados a evangelizar o meio em que estão inseridos, urgem o reforço de uma pastoral querigmática.
O Ano Paulino pode ajudar-nos a sistematizar essa pastoral específica, porque Paulo foi o maior evangelizador de todos os tempos. Ele continua a ser exemplo inspirador do ardor da evangelização e da natureza específica do anúncio querigmático. (in Nota Pastoral da Conferência Episcopal Portuguesa) |